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Professor jornalista ou Jornalista professor?

Conheça um pouco mais sobre Edgard Patrício, professor do Curso de Jornalismo e orientador da Liga Experimental de Comunicação.

Quando se fala em Comunicação e Educação no Ceará, o nome dele é praticamente um sinônimo. Edgard Patrício, professor e jornalista, tem a vida e o discurso fortemente enlaçados ao trabalho de educar através e a partir da mídia. Um dos criadores da ONG Catavento, Edgard possui um currículo extenso, que além do Mestrado e do Doutorado, abarca a experiência como educador e diretor de cursos privados de comunicação em Fortaleza.

Em 2011, Edgard passou a integrar o corpo de professores do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará. Tornou-se também o novo orientador da Liga Experimental de Comunicação, a convite da professora Glícia Pontes, que estava à frente do projeto (hoje, programa) de extensão e se afastou para a realização do Doutorado.

Na entrevista a seguir, Edgard fala sobre a vida profissional, o envolvimento com a extensão, o trabalho com Educomunicação e sobre a ação Palavras de Liberdade, projeto desenvolvido pela Liga em 2011.

Marcelo – Como começou a sua história com a Comunicação Social?

Edgard – A primeira aproximação com o Jornalismo já foi no Ensino Médio. No 2º ou 3º ano, eu já colaborava com um jornal lá de Quixeramobim, que é minha terra natal, oTribuna do Sertão. Fazia alguns artigos sobre política. E nessa época, a gente costumava ter umas idéias muito mirabolantes, bem sacadas e tal, né? Eu fiquei com vontade de fazer Publicidade e Propaganda, só que não tinha a habilitação aqui (na Universidade Federal do Ceará). Isso foi em 1984, quando eu fazia o 3º ano do Ensino Médio. Eu fiquei meio desanimado, mas tava surgindo o curso de Computação na UFC, e meu irmão mais velho me torrou muito a paciência, porque (o curso) dava muito dinheiro. Aí eu fiz Computação. Não era nem Computação, era Processamento de Dados, que era um curso tecnólogo de Nível Superior só de três anos. Eu me graduei e em 1989 fiz o vestibular de novo para Comunicação. Ainda não tinha Publicidade, então a habilitação era Jornalismo. No 3º semestre – eu acho que era no 3º ou 4º semestre – tinha a cadeira de Programa Integrado em Radiojornalismo. Eu reorientei totalmente o meu desejo e não quis mais saber de Publicidade, e aí eu segui no Jornalismo.

O meu primeiro trabalho efetivo dentro da área de Comunicação foi o programa da Catavento, que era um programa de rádio de Educação Ambiental, veiculado pela primeira vez em 1991, aqui na Rádio Universitária, enquanto eu ainda fazia Comunicação. A gente tava no 4º ou 5º semestre e foram quatro colegas: eu; Andréa Pinheiro, que hoje é professora também do curso; a Giovana Teles, que hoje é repórter da TV Globo lá em Brasília; e o Roberto Hipólito, que infelizmente já faleceu. Esse programa durou sete anos, foi veiculado até 1998, e foi a porta de entrada pra gente. É, particularmente pra mim, em termos da Comunicação, em termos do rádio, uma paixão antiga, e que ainda continua.

Marcelo – Quais foram as experiências pessoais que te levaram a trabalhar com Comunicação e Educação?

Edgard – Eu não sei se intuitivamente, mas no 3º semestre do meu curso de Comunicação, eu já fiz um, digamos assim, um ensaio sobre a Comunicação e a Educação na obra de Paulo Freire. Essa questão sempre me acompanha: como é que a Comunicação é aprendida por quem tá do outro lado? Como a gente pode potencializar a Comunicação, como é que ela pode ser educativa, mobilizar sentimentos, conhecimentos e tudo mais. Também por conta da atuação concreta no Catavento. Existia isso, inclusive, como propósito. Trazer a questão ambiental pro dia-a-dia, pro cotidiano, pras pessoas. E isso você só consegue através de estratégias educativas. Então ficou uma coisa com outra e foi se somando. Reforçou a questão do Mestrado e Doutorado e ainda continuo com essa aproximação.

William – Edgard, nós queríamos saber qual a sua relação com a extensão. Como você lidou com o convite para coordenar a Liga, atualmente um Programa de Extensão?

Edgard – Antes de chegar aqui como professor do curso, eu era jornalista na Pró-Reitoria de Extensão. Então, eu tenho essa vivência com a extensão a partir do trabalho como servidor técnico-administrativo e como jornalista. E a Pró-Reitoria tem uma grande dificuldade de mobilizar tantos os projetos quanto os programas de extensão. Então, quando eu cheguei aqui, a Glícia (Pontes, primeira orientadora da Liga e ex-coordenadora do curso de Comunicação Social da UFC) estava se afastando para o doutorado e ela estava procurando um coordenador para assumir o projeto de extensão Liga Experimental de Comunicação. Eu acho que facilitou pelo projeto que estava sendo posto em execução, o Palavras de Liberdade, que tem uma parte vinculada ao rádio. Eu acho que isso facilitou a minha identificação com o Projeto.

“Essa questão sempre me acompanha: como é que a Comunicação é aprendida por quem tá do outro lado? Como a gente pode potencializar a Comunicação, como é que ela pode ser educativa, mobilizar sentimentos, conhecimentos e tudo mais.”

Por conta de uma política da Pró-Reitoria de Extensão, eles estão dando mais visibilidade e, assim, mais apoio a ações de extensão que estão vinculadas a programas. Por quê? Porque você possibilita uma articulação maior entre essas ações, dentro do programa. Então uma das primeiras coisas que a gente fez foi transformar a Liga em Programa de Extensão. Atualmente, ela tem, digamos, quase três projetos. Dois concretamente, que são o Palavras de Liberdade e a Oficina de Quadrinhos, e um terceiro que a gente está querendo ainda formalizar, que é essa parte do trabalho da Liga com a assessoria aos movimentos sociais, ONG’s e a grupos organizados para trabalhar a comunicação de uma maneira geral. Essa é uma ação antiga que eu acho que formatou a própria Liga, mas que não está formalizada enquanto projeto, mas a gente vai tentar fazer isso agora.

Bárbara – O Palavras de Liberdade este ano vai abordar as temáticas Juventude, Diversidade, Meio-ambiente, Inclusão digital e Violência. Na sua opinião, qual a importância dessas temáticas estarem sendo abordadas e com quais delas você tem mais familiaridade?

Edgard – Eu acho que a gente poderia trazer todas essas temáticas dentro de um guarda-chuva maior que é Direitos Humanos. E dentro do trabalho que a gente desenvolveu e ainda desenvolve na ONG Catavento, essa questão dos direitos humanos é bem forte, principalmente com os diretos relacionados a crianças e adolescentes. É então essa questão de você fazer uma vinculação entre comunicação e direito humano, que é uma abordagem talvez mais recente, porque antes você tinha uma perspectiva apenas da informação como direito humano. Isso por conta das Conferências de Comunicação, tanto regional, estadual, como nacional, em 2009. A gente também participou dessas conferências. Então você tem essa nova abordagem: comunicação como direito humano. Dentre as temáticas eu não indicaria uma que eu considero mais relevante ou com que eu me identifico mais. Eu acho que com todas nós temos alguma relação por conta desse guarda-chuva maior de Direitos Humanos.

William – Qual a importância que a comunicação tem na prática para realização desses direitos?

Edgard – A gente pode até começar a falar em “Meta-Direitos Humanos”. Ora, se a comunicação é um direito e ela pode viabilizar outros direitos, então tem tudo a ver, né? Vou te dar um exemplo de como a gente pode trabalhar isso. O Catavento desenvolve um projeto que é o Infância em Pauta. A gente faz um monitoramento e qualificação da mídia para que a comunicação possa trabalhar em prol da garantia dos direitos de crianças e adolescentes. A gente faz a clipagem e a partir dela a gente faz a análise dessa cobertura e vê em que pontos ela pode ser melhorada em termos de abordagem, em termos de fonte, em termos de conteúdo e em termos dos próprios termos utilizados. Uma das coisas que a gente bate muito é por que que as matérias que trazem situações sobre crianças e adolescentes quase nunca trazem as crianças e os adolescentes como fontes. São só os pais, as mães, os responsáveis, que, de uma forma mais ampla, a gente chama “os adultos cuidadores”, ou então o conselheiro tutelar, o conselheiro de direito, o Ministério Público… Uma das coisas que a gente trabalha nesse processo de qualificação da mídia é que a própria criança ou adolescente também seja ouvida, seja fonte nessa cobertura. A gente vem fazendo esse trabalho desde 2003 aqui no Ceará e dá pra sentir que a mídia tem colaborado para reverter uma compreensão das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

“Uma das coisas que trabalhamos nesse processo de qualificação da mídia, é que a própria criança ou adolescente também seja ouvida, seja fonte nessa cobertura”

Então, a comunicação trabalha e pode trabalhar nessa direção da garantia dos direitos de crianças e adolescentes. É o único exemplo que posso te dar de como isso deve ser feito.

Marcelo – Você falou de uma melhora no tratamento ao jovem, você acha que está próximo do ideal ou ainda há muito a caminhar?

Edgard – Não, sempre a gente vai ter que ficar fazendo esse acompanhamento. É o seguinte: quando essa cultura do respeito aos direitos da criança e dos adolescentes é incorporada à cultura do veículo de comunicação, é mais difícil você ter uma, digamos, recaída em relação à cobertura anterior. Por exemplo, eu considero que o jornal O Povohoje, aqui no estado, incorporou essa cultura a partir de um trabalho que começou lá com a Ana Márcia Diógenes, quando ela era diretora de redação do jornal. Não é coincidência que hoje ela é a coordenadora do escritório do UNICEF no Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Então, foi sendo desenvolvida uma cultura de respeito aos direitos da criança e do adolescente que hoje está incorporada à cultura do jornal. Acho que dificilmente vai haver uma reversão dessa cultura, mas em veículos de comunicação que têm uma rotatividade maior, que não trabalham essa questão da sua cultura midiática, pode ser que haja reversão. Então deve e pode haver a necessidade de fazer um re-trabalho em relação a determinados veículos.

Roberta – Dentro das temáticas que serão trabalhadas no projeto Palavras de Liberdade, dos trabalhos que serão desenvolvidos pelos estudantes de Comunicação, a gente queria saber quais são as suas expectativas em relação ao projeto?

Edgard – Eu acho que a própria formulação que os meninos e meninas e a Glícia trabalharam no Palavras de Liberdade já dá o tom de efetividade da ação, a tendência em causar algum resultado, algum impacto positivo. Pela própria formatação, ou seja, uma preocupação primeira com a discussão da temática, e aí se inaugura a mesa redonda. Depois uma preocupação com o que tá sendo feito em torno da temática, aí tem a questão das visitas aos projetos sociais, sejam ONGs, movimentos, grupos organizados que estão trabalhando com aquela temática, desenvolvendo ações concretamente, na prática. Um terceiro momento que é o aprofundamento da discussão que a gente vai realizar entrevistas coletivas com os participantes da mesa redonda. E um quarto momento que é a fixação desse conhecimento no programa de rádio.

Acho esse formato super interessante. Demonstra a preocupação de conhecer essas temáticas a partir de uma metodologia que seja sistêmica. Pra mim, eu acho que deve ter impactos bem interessantes.

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