• Alexia Vieira e Letícia do Vale

Por um fio

Para onde vai o lixo têxtil? Os restos de tecido das grandes empresas de roupa são aproveitados? O que o Estado faz para reduzir o impacto desses descartes? O descarte de lixo têxtil no Ceará é um problema que não recebe a atenção adequada, e governo e população ainda não conseguem medir as consequências dessa negligência.

A indústria têxtil vem deixando marcas no meio ambiente. Com mais de 1.720 empresas, o segmento se consolida no Ceará desde o século XVIII e é grande parte da economia do estado. Da produção ao descarte, a indústria têxtil é responsável pela criação de resíduos que prejudicam o ar, o solo e a água. O processo de reciclagem do material é pouco explorado e o destino é geralmente lixões ou aterros sanitários. Além disso, os órgãos municipais não apresentam dados específicos capazes de mensurar o tamanho do problema, favorecendo à propagação da falta de informações sobre a temática. O desconhecimento da origem e do fim das roupas que nos vestem favorecem o desenvolvimento de uma sociedade insustentável.

A fabricação dos produtos desenvolvida na área requer o uso de variados recursos naturais. Segundo a World Wide Fund for Nature (WWF), para a produção de uma única camisa de algodão são necessários cerca de 2.700 litros de água. O material é muito utilizado no Ceará, que em 2013 foi o segundo maior consumidor da fibra do Brasil. De acordo com o livro “Fiar e Tecer 130 anos” do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral no Estado do Ceará (Sinditêxtil), a região utilizou 200 mil toneladas da matéria-prima. Apesar do grande uso do material, a fabricação fortalezense consiste principalmente em materiais sintéticos. Nos último anos, a matéria-prima orgânica utilizada pelas confecções foi substituída pelo trabalho com substâncias químicas e produtos artificiais, como os polímeros, macromoléculas. A escolha por tal tipo de tecido deve-se ao preço mais acessível, favorecendo à produção em grande quantidade. O algodão não é um protagonista para a baixa renda.

Atualmente, a fibra orgânica é um diferencial nas confecções, chegando a custar até o quádruplo quando comparado a uma peça sintética. Ela não é significativamente encontrada em feiras populares como o Beco da Poeira ou os boxes da José Avelino. De acordo com a pesquisa deste ano “Dirty Fashion” da Fundação Changing Market, os inseticidas utilizados na plantação de algodão representam 24% do total mundial, enquanto os pesticidas correspondem a 11%. Apesar disso, o geógrafo Marlon Cavalcante afirma que o material sintético sobrepõe-se às fibras orgânicas em relação aos prejuízos ambientais causados. Reagentes e substâncias artificiais são necessárias para formar os polímeros, não produzidos de maneira direta pela natureza. “Fabricar o produto sintético requer mais industrialização. Esse tipo de empresa muitas vezes não é reconhecida ou não obedece às leis ambientais, já que as peças precisam sair a um preço popular”, explica o estudioso.

Em 2014, Marlon produziu uma tese de doutorado intitulada “A dinâmica dos circuitos da economia urbana na indústria de confecção em Fortaleza-Ceará”. Apesar de o meio ambiente não ter sido o objeto da pesquisa, o geógrafo relata que a poluição causada pela indústria é facilmente observável. U exemplo do problema é a cidade de Toritama, localizada no agreste pernambucano e conhecida como a Capital do Jeans do Brasil. Além da etapa de confecção, essa vestimenta requer outro tipo de processo ainda mais trabalhoso: a lavagem. As lavanderias específicas para a prática necessitam de uma alta quantidade de água para a produção. Conforme a entrevista da designer industrial e escritora holandesa Babette Porcelijin para a BBC este ano, são gastos pelo menos 50 litros de água, além do processo emitir cerca de 12,5 kg de CO2 a cada lavagem. Em Toritama, por exemplo, chegam a ser instaladas diques em pequenos açudes e barramentos em rios de médio porte. Segundo o Marlon, nas pequenas indústrias da área a questão ambiental não é tratada, já que o sustento é o objetivo principal dos trabalhadores.

Além disso, a poluição dos recursos hídricos é comum pelo setor devido ao despejo irregular no esgoto de produtos químicos utilizados nos processos. Corantes usados nas roupas são, muitas vezes, tóxicos. Alterando a cor da água, tais materiais podem causar mudanças na qualidade dos efluentes, caso não removidos ou tratados. Essas características causam danos não só à vida aquática, mas também a nossa sáude. “Eu vi, a olho nu, o rio estar com uma parte da água rosa, uma parte azul e outra parte lilás”, afirma Marlon em relação aos locais visitados durante a pesquisa que durou 10 anos. Tais tipos de tintas artificiais são os maiores poluidores utilizados pela indústria segundo Suetônio Mota, ambientalista e doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP).

O solo e o ar também são afetados. Os resíduos compostos por restos de algodão, linhas e tecidos sintéticos são depositados comumente em lixões a céu aberto e aterros sanitários, além de obstruírem ruas se e calçadas da cidade. Em bairros ricos de estabelecimentos têxteis, é comum um cenário composto por dezenas de sacolas amontoadas inadequadamente em um espaço público e cheias de restos advindos das empresas. Lavanderias costumam trabalhar com grandes caldeiras, utilizando a queima de combustível para desenvolver o trabalho. O uso de óleo e lenha como material nesse processo resulta na emissão de sérios gases poluentes. Fuligem, dióxidos de enxofre e gás carbônico comprometem a saúde do planeta, ocasionando doenças e favorecendo o fenômeno do aquecimento global.

Conforme o trabalho de 2014 “Quais os impactos ambientais por trás de cada peça de roupa que compramos?” de Beatriz Couto e Gaby Degaki, são gerados cerca de 175 mil toneladas por ano de resíduos têxteis no Brasil. Desta quantidade, somente 36 mil toneladas passam por um processo de reaproveitamento, como na produção de barbantes, peças de roupa, mantas e fios. O depósito de grandes volumes desses materiais nos ate

rros e lixões esgotam rapidamente a capacidade desses locais, além de apresentarem altas chances de inflamabilidade. É o que relatam Patrícia Cardoso e Angelis Neto na pesquisa de 2011, “Diagnósticos dos resíduos sólidos de uma cadeia produtiva têxtil - um estudo de caso”.

Responsabilidade municipal

Em Fortaleza, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) é a responsável pelo licenciamento de indústrias adequadas ambientalmente. Empresas produtoras de lixo diário correspondente a mais de 100L são consideradas grande geradoras de descartes e devem apresentar o Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS), desenvolvido especificamente para o empreendimento por um técnico cadastrado na secretaria. De acordo com Tâmara Freitas, integrante da coordenadoria de políticas ambientais (CPA) da Seuma, os Ecopontos na Capital recebem o lixo têxtil, então recolhidos por Associações de Catadores registradas e parceiras do órgão municipal. No entanto, não existe um controle por parte do órgão em relação à destinação desses resíduos. Fica à critério do grupo o que será realizado com o lixo.

Já a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), é a responsável pelo monitoramento desses empreendimentos. Desde maio de 2015, quando a lei da Gestão de Resíduos Sólidos (10340) foi aprovada em Fortaleza, até maio deste ano, a Agefis já realizou 33.042 autuações em empresas que foram denunciadas. Dentre essas, 5.446 instituições não possuem ou não cumprem o Plano de Gestão de Resíduos Sólidos. O órgão se baseia nas Normas Brasileiras de Resíduos Sólidos (NBS) e no Plano Nacional de Resíduo Sólido (PNRS) para realizar as fiscalizações.

As grandes geradoras de resíduos devem ser responsáveis pelo custeio, acondicionamento, transporte, armazenamento, coleta e tratamento do material descartado. O despejo irregular de mais de 2m3 de tecido está sujeito a uma multa de 20.277,50 reais. Segundo o articulador da Diretoria de Operações (Diop) da Agefis, Reginaldo Araújo, a indústria têxtil está entre os 5 maiores empreendimentos produtores de lixo, juntamente à indústria civil por exemplo. Ainda de acordo com o profissional, as empresas de tecido são alvo de mais de 100 denúncias por ano na Agência. As queixas são prestadas pela população, que pode entrar em contato com a ouvidoria da Agefis ou com o próprio órgão.

As recomendações municipais para o trato do problema são inúmeras. Podem ser exemplificados a filtragem e reutilização das águas para impedir a propagação de produtos químicos no recursos hídricos, queima de combustíveis menos poluentes, como a madeira de cajueiro ou o gás natural e a reciclagem dos tecidos sólidos, como os retalhos de tecidos. Suetônio relata que já existem algumas formas de recuperação do material utilizado. A matéria-prima não processada na confecção de barbantes, colchas, redes, fitas e pavios podem ser novamente utilizados no processo produtivo. O estudioso aponta apenas dois exemplos de indústrias utilizadoras de esgoto tratado em Fortaleza: a Vicunha em Maracanaú e a Guararapes no Antônio Bezerra.

No entanto, o problema está longe de ser resolvido. É perceptível a falta de controle por parte dos órgãos municipais em relação às ações necessárias para conter o despejo incorreto de resíduos sólidos. Quando perguntados sobre dados específicos da indústria têxtil, tanto a Seuma como a Agefis foram incapazes de relatar essas informações. Não existe uma divisão por parte da secretaria e da agência em correspondente ao tipo de indústrias poluentes. Assim, informações importantes como a média de lixo têxtil produzido na Capital e a quantidade de indústrias de tecido licenciadas precisam de uma burocracia para serem acessados, ou até nem existem.

Esse cenário dificultoso promove a agravação da adversidade. Sem dados chave se torna improvável o registro adequado do problema, com a mensuração da abrangência e das devidas consequências. Uma cidade alheia aos principais setores poluentes pode apresentar dificuldades em manter políticas públicas eficientes para o tratamento do problema. Dessa forma, é possível que empresas ecologicamente insustentáveis permaneçam funcionando e prejudicando o meio ambiente. Parte dos cidadãos não tem conhecimento do quão prejudicial ao planeta pode ser uma simples calça jeans. A negligência na área cria uma imagem das peças de roupas como itens inofensivos à natureza.

Responsabilidade empresarial

Interior da Softlave. Foto: Alexia Vieira​

Galpão quente, sujo e cheio de produtos químicos. Esse é o ambiente de trabalho dos 27 empregados da lavanderia de jeans Softlav, localizada no bairro Parangaba. As lavanderias são uma das principais etapas de produção de roupas jeans, dando cor e textura diferentes para cada peça. Entretanto, os processos feitos por elas são grandes poluentes do meio ambiente. Uma produção de mais de 6.000 unidades de roupas por dia como a da empresa visitada requer muita energia, água e agentes tóxicos. O gerente Erivano Tavares diz que a empresa foi multada há 2 anos pela Prefeitura, na “Arraso”, um outro estabelecimento pertencente ao mesmo dono. A penalidade aconteceu devido à lavanderia utilizar madeira branca para a queima em sua caldeira. Depois disso, Erivano afirma que as duas empresas utilizam somente troncos de cajueiros como matéria prima de sua energia, tipo recomendado pelos órgãos de fiscalização.

Apesar disso, as irregularidades da empresa continuam. Com pouca preocupação com o meio ambiente, Softlav utiliza água do poço para abastecer sua produção. No escoamento dos resíduos, o “tratamento” dado é somente uma tela de proteção no ralo que leva a água repleta de substâncias químicas para os canos da Cidade. A falta de cuidado não é só com a sustentabilidade, mas com as pessoas encarregadas de trabalhar diretamente com o material. Durante nossa visita, um homem de chinelas tentava fazer um compressor de ar funcionar, dando continuidade aos seus afazeres na “cozinha” de produtos químicos do local. Ele não utilizava máscaras, óculos de proteção ou luvas. O avental que cobria somente a parte de baixo de seu corpo era improvisado com um pedaço grande de plástico. Segundo Erivano, os funcionários têm os equipamentos de proteção, mas “não gostam de usar”.

Entre máquinas que lavam, alvejam, secam e centrifugam, Erivaldo afirma que muitas confecções preferem contratar uma lavanderia do que implementar o processo em suas empresas. Além dos custos elevados, a burocracia para lidar com todos os impactos ambientais provenientes desse tipo de negócio afasta comerciantes.

A marca de roupas Gata Enxerida, por exemplo, não tem lavanderia própria. Em vez disso, são contratadas três empresas para executar essa tarefa. O jeans é um dos principais tecidos empregados na produção. Na fábrica, localizada também na Parangaba, trabalham cerca de 60 funcionários. Eles desempenham a função de cortar o tecido, costurar, modelar e finalizar a peça. Mesmo tendo menor potencial poluidor do que a Softlav, a confecção da marca cearense também deve se preocupar com os resíduos que deixam a montagem.

Segundo a estilista Sara Raquel Arruda, a marca se preocupa com o desperdício de tecidos e materiais, mas a motivação nem sempre é o meio ambiente. “A minha chefe sempre diz que tudo é dinheiro, então não podemos deixar nada ir pro lixo”. Sara afirma que a rede de roupas femininas utiliza um sistema chamado Audace, que maximiza o aproveitamento dos tecidos na hora do corte e costura. Por ser computadorizado, o programa ajuda na contenção de resíduos.

Além disso, sacos de embalagens, etiquetas velhas e retalhos são guardados e reutilizados. Os retalhos voltam para o processo de produção, na confecção de brindes para as compradoras, ou são doados para quem trabalha com reciclagem. A fábrica da Gata Enxerida é limpa e os funcionários usam máscaras e equipamentos de proteção. “É muito produto químico nas roupas, eles que lidam 24h com isso precisam se preservar”, relata a estilista. O cuidado com a saúde e a regularização dos trabalhadores é um aspecto que a marca se atenta. De acordo com Sara, a fábrica tinha mais de 200 funcionários há 3 anos, mas com o agravamento da crise econômica, o número foi diminuindo consideravelmente. Isso contribuiu também para a baixa no estoque. “O estoque estava muito parado, então decidimos comprar os materiais suficientes para um mês de produção. Quando é de boa qualidade não estraga”, afirma.

A Gata Enxerida não divulgou a quantidade de lixo que produz e não tem um Plano de Gestão de Resíduos Sólidos (PGRS). Sara Raquel não têm noção do impacto da empresa que trabalha causa no meio ambiente, mas reconhece que a poluição gerada pela indústria têxtil no geral é inquietante. “Acho que estou poluindo, né? Esse processo é prejudicial, então tentamos ter cuidado, por exemplo, com as lavanderias que contratamos. Aquelas que têm processos que respeitam o meio ambiente são prioridade, mas não temos como controlar isso”.

Entrelinhas D. Joaninha e sua colcha de retalhos

Quem foi que disse que idade avançada é sinônimo de repouso constante? Não é assim que pensa Joana Recamonde, ou melhor, D. Joaninha. Aos 91 anos, a artista continua trabalhando com o que ama: a costura. No entanto, seu principal material não é muito tradicional. D. Joaninha gosta de desenvolver os produtos a partir de retalhos de tecidos. Naquilo que muitos só conseguem enxergar o lixo os olhos da aposentada perpassam o visual inicial e constroem um design inovador.

D. Joaninha recebe os retalhos dos negócios da família. Funcionando há mais de 40 anos, a Fábrica Recaman de artefatos de couro limitados começou com a produção de equipamentos de proteção individual, os EPI. Atualmente, a indústria trabalha desenvolvendo uniformes para diversas áreas: exército, corpo de bombeiros, polícia, hospitais, entre outros. O tecido utilizado é o brim santista, constituindo uma ótima matéria-prima para D. Joaninha.

A ideia de reciclagem começou há muito tempo. Em meados de 1989, a artista se mudou para uma fazenda em Caucaia. “O povo era muito desocupado, aí eu resolvi dar alguma coisa para eles fazerem”, explica a aposentada. Assim, a senhora passou a frente todos os seus ensinamentos na área, aprendidos desde moça. Ao voltar para a cidade em 1996, o abandono da prática era impensável, já que o exercício funcionou como uma verdadeira terapia. “É isso que a mantém viva. Ela fica sem tempo de pensar em doença, em coisa ruim. Ela se sente útil”, aponta Lúcia Recamonde, filha de 62 anos da costureira e antiga química industrial.

Material de trabalho de D. Joaninha. Foto: Letícia do Vale

O principal produto proveniente dos retalhos são as colchas. Compostas por designs geométricos e uma incrível combinação de cores, apresentam tamanhos dos mais variados. O processo de desenvolvimento das peças ocorre em etapas. Primeiro, é necessário recortar os tecidos recebidos da maneira desejada por D. Joaninha, tarefa que leva, em média, seis dias. Em seguida, a artista vai juntando as formas em tiras, durante o mesmo tempo da fase anterior. Ao final resta apenas a montagem da peça, mais rápida quando comparada às demais fases. O trabalho árduo da costureira é capaz de produzir até duas colchas e meia em apenas um dia.

Além da roupa de cama, os pedaços de tecido que acabam sobrando da produção dessas peças vão para outros itens. Assim, panos de prato, lençóis, tapetes de banheiro e fronhas recebem no acabamento a adesão desses retalhos para colorir e estilizar os produtos. “Não sobra nada”, garante Lúcia.

A história de D. Joaninha inspira quem está ao seu redor. Na família, mãe, irmã e sobrinha foram ou são adeptas à prática de reutilização dos tecidos. Além disso, a senhora de 91 anos tem prazer em disponibilizar materiais e técnicas para que as pessoas, principalmente mulheres, conquistem a liberdade financeira. Dessa maneira, a artista chega a ​presentear parentes e funcionários com peças suas destinadas às vendas e até máquinas de costura, dando continuidade ao seu legado.

Apesar das ações, a artista não aparenta ter consciência sobre a importância do seu trabalho no combate ao desperdício e à poluição fomentada pela indústria têxtil. Mesmo assim, afirma: “antes ia pro lixo né, mas pra que isso, se a gente pode fazer uma coisa bonita dessas?”, completa a aposentada, sempre risonha e orgulhosa de sua produção.

A reportagem "Por um fio" foi produzida por Alexia Vieira e Letícia do Vale para a cadeira de Impresso I do 4º semestre do Curso de Jornalismo da UFC.