• Karyne Lane e Mateus Brisa

RÉ. Há resistência por toda arte

Ritmo, história, sentimento: cultura de resistência transforma manifestações artísticas em ferramentas de protesto e evidencia que arte e política estão entrelaçadas

A palavra resistência conserva sentidos em diferentes áreas: na Ecologia, significa a habilidade de um sistema de manter funcionamento diante de um distúrbio; para o Direito, é uma oposição à execução de ato legal; para a Física, apesar das diversas ramificações, está comumente ligada à capacidade de um corpo qualquer se opor à passagem de corrente elétrica; já na Anatomia, trata-se do trabalho de proteção ao organismo feito pelo sistema imunológico; para a Psicologia, é um termo que designa ações e palavras que dificultam o acesso ao inconsciente. Em todos os sentidos, entretanto, a palavra se apresenta como um esforço organizado e que busca movimentar toda uma estrutura em torno de um único sentimento: a vontade de permanecer existindo. Entre o que são os sentidos e o que é sentido, “se fere minha existência, eu serei resistência”.

Fazer arte é fazer resistência, desde os tempos mais remotos. Das conexões entre o passado e o presente, muitos são os traços que permitem reflexões acerca da participação da arte nos processos culturais que formam a sociedade.

No Brasil, os quilombos de resistência à escravidão onde se podia jogar a capoeira, tocar o atabaque e dançar a liberdade já declaravam que arte não é só coisa de museu; é inerente ao ser humano. Entre ditaduras e democracias, os embates entre o povo e o governo eram refletidos também nas artes: o Modernismo da Semana de Arte Moderna de 1922 tornou-se instrumento para romper com o pensamento conformista e lutar pela identidade nacional; nos anos 1970, as notas de cruzeiro eram carimbadas com a fatídica frase “Quem matou Herzog?”, em uma provocação política contra os anos de chumbo.

Enquanto meio de comunicação, a arte não é só o que faz pensar; ela permite um entendimento mais amplo de mundo e dá subsídios para compreender a união que envolve racionalidade, emoção e atividades corporais. No cotidiano, as imagens que oferecem produtos, conceitos, comportamentos e ideias são colocadas para leitura e abertura de interpretações que exercitam a consciência. Na escola, o exercício de leitura da obra de arte prepara o público para a recepção das mesmas, sendo considerada uma mediação entre a arte e o público. Daí a necessidade de seu ensino em sala de aula enquanto meio de ampliação de plateia para teatro e cinema, por exemplo.

Maria Macêdo, 22, é artista, estudante do curso de licenciatura em Artes Visuais da Universidade Regional do Cariri (URCA), já foi bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Ela considera o ensino das artes como parte importante da educação por acreditar no poder de transformação desta: “A potência que é ter um/a profissional com formação na área de artes lecionando e ser um/a professor/a de arte é revolucionária”, enfatiza. No início de maio de 2016, foi publicada a Lei 13.278/2016, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB — Lei 9.394/1996), e determinando que o ensino de teatro, artes visuais, música e dança passe a ser obrigatório no ensino básico do Brasil. Até então, apenas a música era componente obrigatório.

No Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da URCA, onde estão abrigados os cursos de Teatro e Artes Visuais, são vários os movimentos de resistência organizados por estudantes e professores/as. Esses movimentos são instigados por razões que vão desde a questão estrutural do local, passando pelas melhores condições de ensino até o combate às tentativas de censura e opressão enfrentadas pelas pessoas que fazem e ensinam arte na região do Cariri cearense. Recentemente, um debate sobre o tema convidou a comunidade a organizar e fortalecer a mobilização através de discussões sobre a atuação do/a artista em ambientes de opressão, mostrando a diversidade de ideias e o pensamento crítico.

O processo de aprendizagem da criança é um exemplo de como o ser humano se utiliza dos meios que tem para se expressar e se comunicar. Através do ensino das artes é possível apresentar a cada ser uma experiência particular envolvendo prática e teoria baseadas em produção artística, história da arte, estética e/ou crítica de arte, o que abre espaço para o desenvolvimento de uma auto-expressão em cada indivíduo.

Por intermédio das artes são formados/as adultos/as conscientes e capazes de apreciar essa linguagem com uma postura crítica, transformando uma experiência estética em algo positivo para si e para a sociedade. Nesse sentido, não se trata mais de perguntar o que o/a artista quis dizer em uma obra, mas o que a obra diz, no aqui e agora de cada contexto, assim como disse em outros momentos da história a outros/as espectadores/as. Privar, limitar ou tentar deslegitimar o ensino de artes significa impedir o acesso às tradições e à cultura.

ARTE URBANA E RESISTÊNCIA

“Lembro que quando eu era criança e passava pela rua, via alguns graffiti e pensava: um dia eu vou fazer isso”, revela Yuri Sousa, 21, artista de rua há três anos e autor de uma obra que repercutiu recentemente por retratar um beijo entre o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente eleito no Brasil, Jair Bolsonaro.

Graffiti feito entre as ruas 09 e 10 do bairro Jereissati I na cidade de Maracanaú (CE) e que retrata Jair Bolsonaro e Donald Trump selando um beijo. Foi apagada da parede dois dias após ter sido feita pelo artista M Black (Foto: Reprodução/Instagram)

A arte urbana de Yuri (também conhecido como Bad Boy Preto), feita entre as ruas 09 e 10 do bairro Jereissati I em Maracanaú (CE), sua cidade-natal, foi apagada e coberta por uma tinta azul 48 horas depois de pronta — motivo pela qual passou a ser bastante reproduzida na internet e se tornou destaque na imprensa local. Sobre a obra em questão, o artista explica que a ideia surgiu no período das eleições: “nesse período eu estava parado, só estudando para melhorar minha técnica quando fosse voltar a pintar e eu ouvi muita coisa, inclusive o que Bolsonaro falou sobre homossexuais. E aí associei a postura e opiniões dele com o presidente americano, então veio a ideia de fazer os dois num beijo — também como uma crítica a tudo o que falaram, uma resposta ou contra-ataque”, afirma.

Yuri conta que um ano antes de começar a deixar sua marca pelas cidades decidiu estudar sobre o grafite e participar de eventos com grafiteiros/as do Ceará: “Nunca conheci ninguém que fazia aquilo e comecei a ir [para os eventos] nem que fosse só para olhar e aprender alguma coisa; daí, quando fiz 18 anos eu decidi tomar a atitude de pintar na rua: só quis ir, nada ia me impedir — nem a vergonha de estar pintando na rua”, conta.

Yuri afirma ter ficado chateado quando soube que seu graffiti havia sido rasurado, principalmente porque não teve tempo de fotografá-lo com uma câmera profissional. Entretanto, revela ter sentido o impacto da repercussão de sua arte: “ O alívio foi que eu tinha tirado uma foto antes de apagarem, mas eu queria aquele graffiti na parede, que vissem ele lá, porque era também uma prova da minha evolução. Mas isso eu consegui, pela repercussão muita gente aqui [da região] que não conhecia meu trabalho passou a conhecer”, conta ele.

Breno Duarte, 21, também faz arte nas ruas e adentrou esta cultura há três anos. Para ele, “toda forma de manifestação é válida, e se um graffiti é apagado por alguém é porque aquela mensagem chegou com força àquela pessoa”. Sobre a obra de Bad Boy Preto, o grafiteiro que assina seus feitos como BRN conta que o conhece e que “apareceu muita gente criticando o artista mas também aclamando, interpretando e elogiando o trabalho dele. O graffiti existe com essa função de mostrar à população que não é só um desenho bonitinho na parede, mas sim uma ideologia que tem por trás de tudo, que luta por igualdade e liberdade de expressão”, pontua.

A respeito da sua história e o envolvimento com o graffiti, Breno relata que a paixão surgiu quando criança, ao se divertir desenhando e observando as paredes pela cidade: “Na minha rua moravam alguns grafiteiros bastante conhecidos no estado, então fui perguntar como eu aprendia a fazer essa arte nas ruas. A primeira coisa que me falaram foi para eu estudar a história do hip-hop, pois se eu realmente queria fazer parte daquela cultura eu teria que saber o que aconteceu no passado até chegar ao que é hoje”. A partir desse contato, Breno se viu interessado na ideia de resistência dessa arte. “Desde o início o graffiti foi muito reprimido pela sociedade, mas mesmo assim a galera não desistiu e continuou a mostrar que existia e estava ali lutando por um espaço”, conclui.

Artistas de rua se utilizam da cidade para desenvolver ações que dialogam com a conjuntura política do país e criar intervenções artísticas que vão muito além de obras meramente decorativas: a arte acompanha a luta de grupos marginalizados e a busca por pluralidade e diversidade. Banksy, Os Gêmeos, Eduardo Kobra e tantos outros artistas, por exemplo, também já tiveram seus trabalhos apagados; a resistência contra os que adoram o cinza dos muros no poder e em defesa de um território livre para debater o cotidiano sem censura não começou agora e nem aparenta estar perto de terminar.

BORDADO E RESISTÊNCIA

Quando perguntado sobre arte enquanto manifestação política, Rodrigo Lopes, 23 anos, artista e estudante de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Ceará (UFC), afirmou que não existe um “campo neutro” em que as pessoas possam viver sem tomar partido, visto que até mesmo em uma abstenção há algum tipo de desdobramento prévio. Criar, produzir e lançar arte é política, em especial num país onde a criação artística não recebe o devido prestígio.

Rodrigo conheceu o bordado, que é seu material de trabalho e de vivência, através de um amigo e pouco a pouco tomou esta forma de arte para si, tornando-a o aspecto central de seu Trabalho de Conclusão de Curso, que consiste em uma série de fotografias de sua infância bordadas com frases machistas e homofóbicas que o pai entoou para ele e para a irmã.

Ele se aproxima de histórias de diferentes pessoas através de oficinas de bordado que ministra nos mais variados ambientes. É nestes espaços de diálogo e aprendizado que ele entende seu papel de manifestação política. Ao conversar sobre assuntos inesperados, como sua sexualidade, seu relacionamento com o pai e com a igreja, de forma descontraída nestas oficinas, pessoas desconhecidas são atingidas de maneiras diversas, seja simpatizando com a trajetória de Rodrigo ou vendo nele uma história de vida semelhante. Estas interações variadas permeiam reflexões de ambas as partes, semeando uma possibilidade de mudança.

“Se eu alcanço dar oficinas e converso sobre minha relação com sexualidade, como foi minha trajetória na igreja, então é aí que eu vou fazer, porque é onde eu alcanço, é quando eu falo da minha vida, quando eu falo das questões, por ter sido evangélico, quando eu falo que até hoje meu pai não me aceita como gay, quando falo que fui expulso de casa, quando todas essas coisas eu consigo compartilhar com outras pessoas, acredito que nesse momento algo político, nesse sentido de transformação, tá acontecendo”.

MÚSICA E RESISTÊNCIA

Formado por estudantes que anseiam contar suas histórias e dialogar com outras narrativas, o Projeto Noodles é uma banda criada a partir de uma decepção amorosa, como brinca Natanael Gomes, 19, o vocalista e idealizador. A banda é integrada por Natanael juntamente de Gabriel Cabral, 21, Matheus Aguiar, 20, e Bruno Viana, 20, além de Caironi Ramos, 22, responsável por usar sua expressão corporal para dar vida às músicas.

Atraídos pela música e as diversas sensações que ela transmite, os integrantes não conseguem evitar ver sua arte como política. Do ensaio até os shows, eles se locomovem de diferentes bairros de Fortaleza para se reunirem e ocuparem os espaços que lhes são de direito. O fato de haverem pessoas com diferentes expressões de sexualidade e gênero alavanca a música que eles criam como canalizador de um pensamento político.

Gabriel, o percussionista da banda, acredita que “arte é essencialmente política”, além de um elemento facilitador da comunicação entre diferentes grupos sociais. Em sua visão, isso acontece recorrentemente no gênero rap, que leva de forma fácil os pensamentos e reflexões constantemente pleiteados dentro dos espaços acadêmicos para fora, para um público que não conhece a linguagem das produções científicas mas que também precisa desses debates. Caironi, que tem trabalhos à parte do Noodles, é uma artista que, como ela mesmo diz, tenta ressignificar o corpo, posicionando-se num artivismo, termo dado a ações em que um artista encontra em sua arte uma possibilidade de problematização de sua realidade.

Durante o ano de 2017, uma série de casos de censura e proibições a exposições e artistas foram constatados no Brasil, muitos pelo mesmo motivo: a acusação de promover a pedofilia e ofender símbolos religiosos em algumas obras por grupos organizados nas redes sociais - destacando o Movimento Brasil Livre (MBL). Foi o caso do Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, da performance La bête, de Wagner Schwartz, do Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo, da peça “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, no Sesc de Jundiaí, e da exposição "Todas as coisas dignas de serem lembradas", de Simone Barreto, em Fortaleza. Esta última teve obras alteradas pela organização da XIX Unifor Plástica, cujos desenhos censurados abordavam o corpo da mulher e sua relação com o desejo e a sexualidade.

Toda a agitação e repercussão diante dos casos trouxe à tona a discussão sobre nudez artística e a censura, ambientes onde estiveram presentes o ódio e a intolerância tão apreciados por simpatizantes de regimes totalitários, que costumam começar exatamente com ataques às artes e à cultura.