• Livia Levinsk

Resistência indígena na educação

Fundada e voltada para a comunidade indígena, a escola Abá Tapeba põe em evidência resistência em manter viva uma cultura

A escola Abá Tapeba, situada na comunidade Jandaiguaba, em Caucaia, é exemplo de resistência e valorização da cultura indígena no estado do Ceará. A instituição, fundada pela professora e índia Elenilda Lima, existe há 15 anos e se mostra diariamente modelo de força e cultura.

Fundada em 2004, a escola iniciou apenas como uma creche composta por 135 alunos e seis funcionários e tinha como objetivo ajudar mães indígenas da comunidade que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos. Foi crescendo e atualmente é composta por 780 alunos e oferece turmas de creche, ensino fundamental 1 e 2 e EJA. No ano de 2019 a instituição foi a única escola pública do Ceará selecionada para participar do XXV Encontro Nacional do Programa das Escolas Associadas à Unesco do Brasil. A integração com a comunidade é o maior combustível para o seu avanço.

Estudantes fazendo apresentação. A escola tem alunos/as de creche, ensino fundamental e Ensino de Jovens e Adultos (Foto: Grasielly Sousa)

A coordenadora Roberta Kelly diz que a opinião da comunidade dentro e fora da escola é muito importante: “nossa escola é pautada na valorização da cultura indígena. Nós valorizamos nossas crenças, nossos antepassados, nossas lideranças, gostamos que eles estejam presentes com a gente, convidamos e sempre que possível eles estão nos ajudando, nos auxiliando e a comunidade está sempre presente dentro da escola”.

Quando se entra no ambiente, já dá para sentir o orgulho que todos têm de lá e é incrível poder presenciar a resistência das mais diversas formas. A escola tem pinturas Tapebas por todos os lados, em todas as salas, nos banheiros, nos corredores, todo o espaço é utilizado para mostrar a arte. Os professores usam colares, cocares diariamente e nas terças e quintas iniciam e terminam o dia cantando com o tradicional ritual de dança do Toré, que é feita no terreiro que fica no centro da escola. Juntamente com os alunos, todos participam com orgulho e dedicação, dançando, cantando e tocando os tambores e maracás. Os funcionários, mesmo os que não são índios, estão sempre engajados nas artes, na danças e na cultura no geral, mostrando que todos podem apoiar a luta indígena.

É notório o sentimento de pertencimento dos alunos e sua inclusão nas atividades da escola. Nas festas típicas, eles se voluntariam para fazer apresentações de dança e usam os trajes, adereços, pinturas corporais. Eles elogiam o ensino dos professores e dizem que se sentem parte de uma família. “Quero ser professor numa escola indígena, para ensinar o que eu aprendi” afirma o aluno Vandilson Moraes, de 13 anos.

O professor de matemática Phelipe Cavalcante diz que, desde que começou a trabalhar na escola, mudou completamente sua percepção sobre a luta indígena. Ele conta que após ter conhecido, começou a se sensibilizar com a causa e respeitar ainda mais as pessoas, a cultura, a natureza e a vida num geral. “Perceber que a cultura indígena ainda é viva e forte é muito gratificante. Nós, que somos representantes do povo indígena, se não deixarmos essa cultura viva, ela será esquecida”, conta.

A fundadora da escola, Elenilda Lima, junto de estudantes durante festividade (Foto: Grasielly Sousa)

A professora e fundadora da instituição, Elenilda Lima, conta que percebe o preconceito sofrido pela comunidade e diz que seu objetivo é fazer com que os alunos tenham orgulho de sua descendência. “Além de ensinarmos o convencional – português, matemática, história e geografia – a gente inclui também a nossa cultura, contamos a história do nosso povo, das nossas lideranças (...) apesar de estarmos totalmente inseridos na sociedade branca nós estamos tentando manter a nossa cultura”. Elenilda conta que sente uma sensação de dever cumprido após ver o que a escola se tornou.

Por meio de um trabalho em equipe, com respeito, paciência e dedicação, a cultura indígena resiste, se espalha e se fortifica através da educação. A escola é prova de que sempre haverá pessoas dispostas a lutar e manter a cultura indígena viva, ensinando aos mais novos a história e fazendo-os se orgulharem dela, para que eles nunca se esqueçam de onde vieram e acima de tudo respeitem a natureza e as pessoas. Os alunos formados na Abá Tapeba saem de lá com mais sensibilidade em relação a lutas, minorias e diversidade.