O genocídio da população idosa em tempos de pandemia

14/04/2020

 Idosos recebendo vacinação contra influenza (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

 

Em um momento delicado de enfrentamento à pandemia de covid-19, doença cujas vítimas são majoritariamente pessoas idosas, é inadmissível que essa parcela da população – 28 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE – sofra tamanho descaso por parte do chefe do Executivo brasileiro. Em rede nacional na última quinta-feira (9), o senhor Jair Bolsonaro afirmou que “cada família tem que proteger seus idosos, não jogar isso para o Estado”.

 

Dados apresentados pelo Ministério da Saúde e divulgados pela Folha de S.Paulo apontam que cerca de 80% das vítimas fatais da covid-19 tinham mais de 60 anos de idade, percentual que exigiria, por si só, um olhar e uma atuação cuidadosa por parte do poder público em relação a esse grupo social.

 

Na contramão disso, a fala do presidente da República demonstra total desconhecimento acerca do Estatuto do Idoso (lei nº 10.741/2003), que diz, em seu artigo 3º, ser “obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde”.

 

Já sabemos – por meio de tantas outras afirmações veiculadas na televisão e nas redes sociais – que esse senhor não demonstra preocupação com nenhuma pessoa idosa, nem mesmo com seus familiares. Ora, estamos todos em isolamento social, única forma eficaz conhecida e indicada até o momento para a contenção do coronavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

As medidas acertadas de isolamento social – adotadas por governadores e, ironicamente, orientadas até mesmo pelo Ministério da Saúde – são o que o senhor Jair Bolsonaro rejeita, propondo a retomada das atividades comerciais.

 

Instituições para idosos

 

Após cinco idosos testarem positivo para covid-19 em um asilo de alto padrão no Rio de Janeiro, a Justiça estadual determinou, nessa segunda-feira (13), que o estado e os municípios deem suporte e equipem asilos fluminenses para frear a doença entre os idosos. Precisamos, urgentemente, ampliar essa medida para todo o país. 

 

Em um momento como este, o governo federal ignora as pessoas idosas que vivem nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), grupo que precisaria de políticas públicas específicas para o enfrentamento à covid-19. Um levantamento censitário em todo o território nacional, entre 2007 e 2009, contabilizou 84 mil idosos vivendo em ILPIs, cerca de 1% da população brasileira. Essas instituições, muitas delas extremamente carentes de recursos, sobrevivem de doações e trabalho voluntário. Tudo isso me faz pensar que não estamos longe de um genocídio das pessoas idosas.

 

Em documento com recomendações sobre a prevenção e o controle da doença nas ILPIs, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia destaca os motivos pelos quais os idosos que residem ali estão em situação de maior vulnerabilidade à covid-19: eles costumam ser “idosos frágeis”; “geralmente têm doenças subjacentes ou comorbidades em estágios avançados”; “têm idade avançada”; “mantêm contato próximo com outras pessoas (cuidadores e profissionais) e outros coabitantes”; e “passam muito tempo em ambientes fechados e com indivíduos igualmente vulneráveis”.

 

Viver mais e melhor

 

Pesquisas elaboradas pelo IBGE e por entidades como a Fundação Getúlio Vargas vêm apontando que, nas últimas décadas, a população brasileira tem envelhecido mais, o que sugere que a pessoa idosa tem vivido mais e melhor no país.

 

Para mantermos a longevidade recentemente conquistada pelas pessoas idosas no Brasil, gostaria de conclamar, aqui, um olhar mais intenso e substancial sobre esse grupo social. Precisamos cuidar de todos aqueles que cuidaram de seus familiares durante toda a sua vida. Queremos as pessoas idosas vivas e com bem-estar.

 

*Malu Justa tem 65 anos, é pedagoga aposentada, especialista em Gerontologia e atua, desde 2007, na defesa dos direitos da pessoa idosa, participando do Fórum Cearense de Políticas para o Idoso (Focepi) e da Associação Beneficente Social Passo a Passo para Idosos (ABSPI).

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