• Clarice Canuto

O déficit de políticas de saúde mental no Brasil se tornou, com a pandemia, um problema ainda maior

Com o contexto do isolamento social, os riscos a saúde mental tiveram suas mudanças

Setembro chegou, e com ele os laços amarelos e toda a campanha que o marca. Mais uma vez o olhar coletivo se volta para as questões relacionadas à saúde mental, que são trazidas à tona pelo Setembro Amarelo, mas agora o contexto é completamente outro. Os últimos meses, marcados por um panorama global de pandemia e isolamento social são, segundo especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), fatores agravantes que torna os cuidados com saúde mental ainda mais necessários.

Ainda de acordo com dados da OMS, publicados em 2019, o Brasil demonstrava crescimento nas taxas de suicídio, destoando da tendência de queda do índice mundial; esse fato explicita que essa crise de saúde mental precede a pandemia, mas é tremendamente agravada por ela. E é nesse contexto, que a potencialização de sofrimentos psíquicos tem acontecido de forma extremamente significativa, causados não apenas pela covid-19 em si, mas pelas consequências trazidas por ela em muitos âmbitos da sociedade.

A Liga entrevistou Rubens Bias, psicólogo e membro do extinto comitê de prevenção ao Suicídio do Ministério da Saúde, buscando debater sobre os impactos psicológicos da pandemia, políticas públicas de saúde mental e o que pode ser feito em relação a isso.

Liga: A pandemia traz consigo muitos fatores que agravam os riscos à saúde mental coletiva, tornando essa questão ainda mais preocupante. De que forma essa crise global tem impactado na saúde mental das pessoas?

Rubens Bias: O que se observa é que, em relação a pandemia, há vários aspectos que trazem sofrimento psíquico intenso. Tem-se um aspecto de crise econômica que tem impacto sério na vida das pessoas, especialmente as mais pobres, trazendo sofrimento psíquico intenso. Casos como o das pessoas que estão na linha de frente lidando com o vírus de maneira explícita e constante, as que estão sendo diretamente pelo desemprego e há, ainda, toda uma gama de sofrimentos psíquicos relacionados a ter que ficar em casa, com a intensificação da convivência com as pessoas, trazendo processos que vão desde situações mais graves, como pessoas que já sofriam violência doméstica tendo que ficar 24h por dia com seus parceiros e o quanto essa violência é intensificada, até situações menos intensas mas que também geram sofrimento. Além disso, as questões de ter seu trabalho misturado com a sua vida doméstica, trazendo a sensação de que estão trabalhando o tempo todo, sem descanso, a falta de contato com as pessoas queridas, de contato físico e de convivência de vida ao ar livre que também geram sofrimento.

Liga: Qual a importância das políticas públicas de saúde mental no contexto de isolamento social?

Rubens: Seja no contexto do isolamento social, seja no “antigo normal”, o Brasil tem poucas políticas de saúde mental. Temos a rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que é insuficiente mesmo para trabalhar questões mais graves de saúde mental e não temos quase nada sobre promoção de saúde mental, prevenção em saúde mental. Então, é algo fundamental em qualquer situação, especialmente no contexto de pandemia e isolamento social, porque os dispositivos de saúde mental que tínhamos anteriormente estão em cheque, sendo importante que os profissionais saibam disso e tenham uma sensibilidade sobre essa situação, ofertando escuta e apoio para essas pessoas.

Liga: Por que o aumento nos índices ligados a problemas de saúde mental, a exemplo de transtornos como ansiedade e depressão, tem sido tão expressivos?

Rubens: Os índices de problemas de saúde mental têm que ser vistos com cuidado porque a gente vive outro problema simultaneamente, que é a transformação do sofrimento em doença. A experiência de vida das pessoas traz elementos de sofrimento que devem ser lidados tanto em âmbito individual quanto em âmbito das grupalidades da vida daquela pessoa, quanto em âmbito social. Para qualquer situação de sofrimento mental devemos trabalhar nesses três níveis, pensando estratégias específicas para tratar essas questões individualmente. Existe uma tendência de uma psiquiatria mais conservadora a tentar localizar esse sofrimento como uma disfuncionalidade biológica individual, então o problema seria que as pessoas tem doenças que não estão diagnósticas e a solução seria mais consultas psiquiátricas, mais remédios vendidos e isso solucionaria a questão de saúde mental. Então, temos que ter bastante cuidado nesse debate e pensar na questão do sofrimento e dos sentimentos e das ações coletivas para lidar com eles.

Liga: Muitos meios têm desenvolvido plataformas que se voltam para a saúde mental, como o Ceará App, aplicativo lançado pelo Governo do Estado do Ceará. Qual a importância de iniciativas de serviços de saúde, especificamente aqueles que possibilitem assistência psicológica?

Rubens: Ter serviços que prestam atendimento online gratuito usando serviço telefônico usando aplicativos eles são sempre bem vindos, ajuda a prestar o atendimento se aproveitando das facilidades tecnológicas. É preciso que o serviço seja de qualidade, supervisionado por profissionais competentes, mas é uma excelente iniciativa.

Liga: Quais são os principais grupos de pessoas que sofrem com esse desgaste mental durante o isolamento social? Quais os motivos?

Rubens: A população inteira tem um sofrimento envolvido nesse aspecto mas eu destacaria o caso das pessoas que estão ficando desempregadas, por terem vínculos um pouco mais precários ou estarem em trabalhos menos essenciais sendo mandadas embora. Além dessas, as pessoas que estão sendo obrigadas a trabalhar nesse período em que a pandemia continua no auge no Brasil e isso faz com que elas explicitamente sejam colocadas em situação de exposição e risco, estando o tempo todo tendo que lidar com a sensação de que estão adoecendo, com risco de morte ou colocando seus familiares em risco. Essa categoria também tem um aspecto mais específico, que são os profissionais de saúde que estão na linha de frente, tendo que lidar o tempo todo com a pandemia e com pessoas contaminadas, sem terem as melhores condições para isso.

Liga: Que medidas podem ser tomadas para ajudar a população a manter uma saúde mental saudável?

Rubens: Precisamos pensar cada vez mais sobre como promover saúde mental. Promover saúde mental não é apenas acesso a profissional; são comportamento e ações que ajudem as pessoas a ter menos sofrimento psíquico e para isso é importante a divulgação de conhecimento. Então mostrar a importância da convivência entre as pessoas, de ter uma rede de família e de amigos que dê suporte, de meditar, da atividade física e de estar ao ar livre; a importância de questões que qualquer um pode desenvolver e que vão ajudar a promover saúde mental. Junto com isso tem-se o questionamento sobre como podemos prevenir o adoecimento mental e o sofrimento psíquico em ações que também sejam o mais amplas possíveis, e aí entram tanto questões tradicionalmente vinculadas a saúde mental como questões que estão fora do campo psi mas tem um impacto gigantesco, como desemprego e renda mínima de cidadania. Pois, para quem está desempregado, ter uma renda garantida que permita a subsistência digna tem um efeito em garantir saúde mental muito maior do que consultas semanais com um psicólogo ou psiquiatra teriam. E, claro, garantir também acesso aos profissionais de saúde mental, o que significa ampliar os CAPS, colocar esses profissionais de saúde mental em ambulatórios, na atenção primária e garantir que as pessoas que estejam passando por um sofrimento possam acessar esses serviços sem que elas estejam numa situação gravíssima de degeneração das capacidades mentais ou de sofrimentos a ponto de cometer suicídio.

Ajuda profissional

O Centro de Valorização da Vida (CVV) trabalha diretamente com a prevenção ao suicídio, oferecendo apoio emocional e escuta terapêutica de forma gratuita e voluntária, através do número 188 e das demais formas mencionadas no site, como por e-mail ou mensagem.