Desanuviar a multidão

05/09/2018

Eram seis da manhã e, como um mantra, o sol fazia-se desperto sobre as cabeças de tantas e tantos que acordaram ainda antes para desanuviar o dia. Engana-se quem pensa, ao olhar o mar de gente trabalhadora e sertaneja, que somos a mesma coisa: uma massa homogênea.

 

Somos, devo dizer em primeiro lugar, a soma das resistências que tocamos, dos contrapontos que ecoamos ao existir nos espaços. Estabelecemos o contraditório: é assim quando se é LGBT+ num território onde nossa presença é negada, onde nossas vidas são ameaçadas e executadas; e, ainda assim, ousa sapatear os devaneios da vida como um ato de protesto.  

 

Pelo direito a viver com dignidade e em respeito as memórias das muitas que vieram antes de mim: não aceito, não permito que nos digam sermos comuns ou partes de iguais – pois não somos. Sob o manto de palavras que semeiam igualdade – entre heterossexuais e população LGBT+, entre corpos da norma e os fora da regra, entre as vivências na capital e as dinâmicas no sertão – existe algo extremamente violento: a negação de nossos afetos, das cores que pulverizamos em serpentina e de um lugar tão particular para ver e sentir o mundo.

 

Somos, em primeira pessoa plural porque somos muitas – mas não iguais.

Somos porque nossa presença, por todos os cantos, desmantela a ordem que nos impõem.

 

Hoje poderia ser um dia rotineiro. E foi.

Maya, um mulher de raízes sertanejas e estudante de Biologia da UFC, assumiu publicamente no curso o processo de transição para seguir a jornada como uma mulher trans. Maya não é mais uma entre o conjunto de meninas e meninos que ocupam a sala de aula para formação em uma ciência que nos trata como comuns, como iguais. Maya é a vocalização da diversidade entre os povos e a presença dela na academia é um ato de ruptura ainda que em silêncio.

 

Foi um dia rotineiro porque assumir quem somos não é um espetáculo ou um acontecimento: é a expressão de nossas verdades e, em coragem viva, vamos desanuviando o mar de gente e fazendo colorir os dias.

 

Daqui, numa sala de estar em Sobral – de onde escrevo estas palavras – e sendo um viado nascido e criado batendo perna entre cidades do sertão cearense, digito que não queremos a igualdade da norma, do comum. Queremos – e devemos – ser com alegria o que sentimos a partir de nossas marcas, de nossas utopias: como a ousadia de quem alimenta o respiro como um afago ou um abraço, ser – simplesmente existir em resistência – em todos os lugares e a nossa maneira.

 

Por isso, nos próximos capítulos, dedicarei-me a ser instrumento e registrar neste espaço uma série de narrativas de LGBT+ sertanejas. Das memórias coletivas, dos afetos. Falar sobre os lugares não falados, sobre as histórias dos inarráveis que nunca couberam nos registros oficiais do Estado ou do jornalismo. Quero, portanto, tecer um olhar sobre o Ceará a partir de quem escolheu ser amor, viver amor e dar amor.

 

Vamos!

Sem medo!

 

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