• Juliana Ojuara

Periferia organizada: o momento é de solidariedade e união

Desde o golpe parlamentar de 2016, o Brasil vem passando por mudanças que têm provocado o aprofundamento da crise social e econômica do ponto de vista da classe trabalhadora. A PEC 95, que congela os investimentos públicos por 20 anos, e a reforma trabalhista, ambas aprovadas no governo Temer, são responsáveis pela precarização do trabalho, a destruição da CLT e pelos cortes nos gastos com educação, saúde e segurança.

A população periférica está sofrendo mais do que nunca, empurrada para a informalidade, tendo que trabalhar sem garantia de proteção e direitos trabalhistas. Para piorar, o governo Bolsonaro consegue aprovar uma reforma da previdência que ataca o direito da nossa classe de se aposentar antes de morrer. Com o avanço do neoliberalismo e a instalação de um governo com características fascistas no Palácio do Planalto, a aplicação de um programa econômico genocida está sendo fortalecida. Assim, a burguesia brasileira e o mercado financeiro mundial são os únicos beneficiados.

Diante desse cenário, surge uma pandemia causada pelo novo coronavírus. Até o momento cerca de 14 mil pessoas já morreram no mundo. No Brasil, 59 pessoas faleceram e quase três mil casos já foram confirmados, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Governos estaduais estão agindo de forma a proteger vidas decretando isolamento total e fechamento do comércio. Apenas serviços essenciais estão funcionando.

É nesse momento que as diferenças sociais se evidenciam ainda mais. A classe trabalhadora se vê de mãos atadas, pois das duas opões uma: ou cumpre a ordem de quarentena estabelecida pelo governador do Ceará, ou sai para trabalhar e se expõe ao risco de contrair o vírus. Os trabalhadores informais, maioria hoje no país, buscam sua renda diariamente. Cada dia sem trabalhar, é um dia a menos sem garantia de alimentação para suas famílias. Catadores, vendedores ambulantes, entregadores por aplicativo, são as pessoas mais prejudicadas nesse processo. São as famílias periféricas que nesse momento estão isoladas sem poder trabalhar e passando necessidades. Mais do que parar as atividades, devemos exigir medidas que garantam amparo para as famílias precarizadas, como uma renda mínima universal — para isso criar um imposto sobre fortunas — e a revogação da PEC 95 pelo governo federal. No mínimo!

Esse período de isolamento social tem sido difícil no Jangurussu, seja pela falta de recursos, pela escassez de informações mais contundentes e orientações desencontradas ou pela demora em entender a gravidade do problema por parte da população. Sem contar com as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e postos de saúde lotados devido às suspeitas de coronavírus e aos casos de dengue que aumentaram muito no período de quadra chuvosa. Pensando na necessidade que muitas pessoas estão passando no isolamento, nós do Movimento Círculos Populares, estamos compondo duas frentes de luta com movimentos, coletivos e associações comunitárias, em prol das famílias vulneráveis do Jangurussu e da Serrinha, territórios onde atuamos. Cada frente vai arrecadar um valor através de uma campanha de financiamento coletivo, para em um segundo momento, tomando as medidas de segurança exigidas nessa quarentena, montar cestas básicas para dar suporte às famílias de catadores, trabalhadores informais, desempregados e pessoas mais vulneráveis no geral.

O momento é de união e solidariedade. Devemos fortalecer ações que visem dar suporte às nossas periferias, pois a classe que manda em Fortaleza está com o presidente Jair Bolsonaro. Depois do seu pronunciamento na noite desta quarta-feira (24), irresponsável, em que faz pouco caso das mortes causadas pelo COVID-19 até agora e coloca os interesses da burguesia acima da nossa vida, não tem como ficar quieto(a). Devemos nos resguardar e ficar em casa sim, estabelecendo métodos para ajudar uns aos outros, formando laços de solidariedade e passando por mais essa crise para construir o poder popular. Periferia resiste e luta!

* Este artigo de opinião foi produzido no âmbito da Formação de Articulistas da Liga, formação oferecida a representantes de movimentos sociais pela Liga Experimental de Comunicação, projeto de extensão dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Ceará (UFC).