• Carlos Donisete

Fortaleza líquida

Se você tem condições diárias de tomar dois banhos, beber dois litros de água, usar roupas limpas, fazer cinco refeições...você é um privilegiado! Pois então falaremos sobre pessoas que não têm nada: os líquidos e a população de rua é o tema da nossa prosa.


Nos últimos dias, as chuvas do caju e a minha busca pelo conhecimento levaram-me ao encontro do conceito de “modernidade líquida”. Por meio dele, Zygmunt Bauman expõe como as atuais relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis como os líquidos. Tal qual o cotidiano da população de rua, onde tudo é instantâneo e volátil.


Nas ruas, praças, entidades e instituições são servidos: café, chafé, chás, leite (em pó, de caixinha), chocolate quente, achocolatado, Nescau, Toddynho, espoca-bucho (refrigerantes, refrigerecos), sucos (naturais, polpas, artificiais), água mineral (natural, congelada, fluidificada, com gás, torneiral), dindim, mingau de milho com queijo, sopas, canjas e caldos. E se faltar um pouco de sabor, sempre tem alguém com sal, cebola e molho de pimenta para emprestar.


A escassez e a experiência da vida faz com que tenhamos uma biblioteca gustativa excelente. E nunca, nunca mesmo, o doador pode ser desrespeitado. Caso contrário, o agressor terá que arcar com as consequências.


Quanto às bebidas alcoólicas, a cachaça (“buchudinha”, “celular”) e o álcool de posto de combustível têm preferência. Enganam a fome, são baratas e garantem a lombra.


Nos finais de semana, a dinâmica muda, e durante feriados, principalmente Carnaval, a coisa fica dramática: os doadores viajam e a fome e a sede assolam. O único doador infalível é a sopa da HapVida. Chegam durante 365 dias no ano. Mas em situações extremas, aparece um doador de Fiat branco, que joga um monte de garrafa com água congelada e sai às pressas.


Preciso lembrar da “torneira amiga” do posto de gasolina, do Corpo de Bombeiros lá no Jacarecanga e das barracas de praia. Mais uma vez, é preciso lembrar que não temos banheiros públicos em Fortaleza e que as mulheres são as que mais encontram dificuldades para manter a higiene em dia. É possível viver limpo na rua, mas requer estratégias diferentes das comuns para quem leva uma vida caótica.


As entidades e instituições procuram atender à fome e sede dessa população e, assim como somos monitorados por elas, monitoramos também. Elaboramos, entre nós, uma eleição, um Oscar dos produtos e serviços de todas elas: o melhor café, o melhor banho, o melhor banheiro, a melhor reza, o melhor local para guardar documentos, a melhor merenda e por aí vai. Logicamente, não publicaremos aqui, para evitar melindres e represálias.


A combinação entre água de chuveiro, lágrimas e Aseptol deixa meus olhos vermelhos, e as suspeitas aumentam, pois não tenho colírio e nem uso óculos escuros.


Cheers!


Carlos Donisete - Movimento Nacional de População de Rua