• Juliana Ojuara

Por que vidas negras importam

No dia da Marcha da Periferia, a Liga publica artigo de opinião de Juliana Ojuara, militante do Movimento Círculos Populares. O evento ocorre nesta sexta-feira (8), com início às 15h na Praça do Seminário da Prainha, na Praia de Iracema, em Fortaleza.

A sexta edição da Marcha da Periferia aconteceu em novembro de 2018 (Foto: Yuri Juatama)

Pesquisa de 2015 realizada em sete cidades pelo Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, da Assembleia Legislativa do Ceará (ALCE), aponta que a grande maioria dos adolescentes assassinados morreram no próprio bairro onde viviam, locais com infraestrutura e serviços precários e alto nível de vulnerabilidade social. Dos 418 homicídios de crianças e adolescentes de 12 a 18 anos, 69% eram pardos ou pretos.

A negação de direitos básicos como saúde e educação de qualidade, por exemplo, condenam à morte pessoas negras e pobres das periferias dos centros urbanos. Fortaleza não está de fora, e as principais ações da Prefeitura e do Governo do Estado, no que tange a segurança pública, têm sido de ofensiva policial e ataque aos direitos humanos, o que vem provocando assassinatos de jovens negros e pobres nos últimos dez anos. Lembremos da Chacina da Grande Messejana, conhecida como “Chacina do Curió”, em que policiais militares assassinaram 11 pessoas, sendo nove delas jovens entre 16 e 19 anos. Segundo o Ministério Público do Ceará (MPCE), por vingança. Importante destacar que o Ceará é o estado recordista em encarcerar pessoas sem condenação, tem a quinta maior população carcerária do Brasil e mais de 60% é composta de pessoas negras.

Munidos de um amplo debate sobre direitos humanos e combate ao racismo estrutural que legitima as mortes dos nossos jovens negros e pobres, movimentos sociais e coletivos culturais da periferia promovem lutas contra o extermínio da juventude negra e o encarceramento em massa. Uma expressão dessas ações é a Marcha da Periferia. Ocorre todos os anos, organizada por coletivos populares e a 7.ª edição será nesta sexta-feira (8).

A Marcha da Periferia se mostra importante na conjuntura atual (Foto: Coletivo Tentalize)

Com o tema “Vidas negras importam? Nossos mortos têm vez! Periferia resiste!”, a marcha tem o objetivo de denunciar as políticas de extermínio e encarceramento em massa do governador Camilo Santana, repudiar o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, e defender a memória das crianças e dos adolescentes mortos este ano, vítimas de ações policiais como Juan, no Ceará, e Ágatha, no Rio de Janeiro. Sairá da Praça do Seminário da Prainha às 15h e terminará com apresentações culturais de diversos grupos e coletivos periféricos de Fortaleza na Estátua de Iracema, no Aterro da Praia de Iracema. É muito importante que toda a população cearense preste atenção ao que acontece no sistema carcerário do estado e nas ruas dos bairros periféricos das nossas cidades. Precisamos defender os direitos da nossa juventude, se inserir nesse debate para entender o que esses jovens têm a oferecer. Ir à Marcha da Periferia é um ótimo começo.

* Este artigo de opinião foi produzido no âmbito da Formação de Articulistas da Liga, formação oferecida a representantes de movimentos sociais pela Liga Experimental de Comunicação, projeto de extensão dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Ceará (UFC).